ARTIGO: “Mulheres que puxam redes”, por Mariene Francine Lima* Imprimir E-mail
Pesca
Qua, 31 de Agosto de 2011 23:06

A manhã era de inverno e daqueles rigorosos. Inverno que era a cara da tainha... Êta bicho pra gostar de frio... Mas a época do bicho é a época do bicho... É a safra do mar, não dá pra perder!

E pra não perder, os homens saíram cedo, pois de longe viram as bravas tainhas a saltar. Dona Mariquinha e dona Maria Helena ficaram na praia vendo os homens vencerem a arrebentação em direção ao cardume. Lá da praia conversavam e oravam para que tudo desse certo. As ondas estavam mais altas, mas tinham certeza que tudo se encaminharia bem.

Passado um tempo, seu Kalanga e seu Zéquinha com outros companheiros de pesca conseguiram cercar o cardume e atirar-lhes a malha de náilon. As tainhas debatiam-se vorazmente, tentando escapar do emalhe da rede. Do barco, os pescadores podiam ver o povo que se ajuntava para ajudar a puxar a rede. Mulheres e jovens faziam força também. As tainhas são bravas e briguentas e não se dão a qualquer um. E assim, com força no braço trouxeram o cardume pra praia. Todos reunidos, a rede cheia de tainha, começou a divisão. Porque em pesca de tainha é regra: ajudou a puxar a rede da praia, leva pelo menos uma pra casa. E assim o povo se dispersou, carregando a tainha a tiracolo.

Os pescadores repartem entre si a maior quantidade de peixe e seguem seus rumos. Dona Mariquinha e dona Maria Helena, além de ajudar a puxar a rede, vão agora limpar e preparar as tainhas para vender.

Dona Mariquinha não participa só da pesca da tainha, puxando a rede da praia, por vezes já embarcou com seu marido para pescar no mar: É a coisa mais linda... Puxar a rede que vem o peixe! Recorda das pescarias.

Pra falar da cunhada, dona Maria Helena enche a boca: Ela conhece os peixes no mar que nem os homens... A gente vê aquela escuridão de peixe... Ela não, ela tem experiência com os peixes do mar. Ela já sabe.

Dona Maria Helena nunca embarcou, mas desde menina participava dos preparos da pesca, fazendo tarrafa, rede, puçá [puçá é uma armadilha, em formato de coador, muito utilizada para pegar siri, camarão ou até mesmo peixe].

As duas além de cunhadas são vizinhas e sempre limpam o pescado na varanda de dona Mariquinha. Lá passam as horas a descascar camarão, fazer filé de linguado, filé de robalo, filé de mistura [a mistura é feita de várias espécies de peixes pequenos, os pescadores fazem filé e os vendem misturados], limpar pescadinha... Estão sempre envolvidas com a pesca, são pescadoras com orgulho e carteirinha... E ainda são mãe, filha, esposa, guardadoras do lar...

*Mariene Francine Lima é bióloga, Mestre em Educação pela UFPR e colaboradora da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental. O texto faz parte da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFPR:  “Mares e Pescadores: Narrativas e conversas em Itapoá”.

 

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