CRÔNICA: A pesca vicia, por Mariene Francine Lima* Imprimir E-mail
Pesca
Seg, 26 de Setembro de 2011 22:25

A vida na pesca inicia-se cedo, quando criança ainda. Começa-se como gajero [de acordo com seu João, gajero eram aqueles que ajudavam os pescadores, por exemplo, os próprios filhos que ainda estavam por aprender a pescar], carregando o cesto e alguns petrechos da pescaria. Com o olhar longo e atento, o piá copia o trejeito do pai, o molejo do tio. Não há muita explicação, muita escola... Não é matéria que se aprende em livro. Aprende-se com os mais velhos, no olhar, no fazer, no tentar.

É acompanhando a lida do pai que se desenvolve na pescaria. Aprende a fazer tarrafa, rede, puçá... E assim se cria, nas águas, no sol, na lida da pesca. Muitas vezes a necessidade é maior que a vontade ou oportunidade de tentar outro trabalho e então, tem na pesca destino certeiro. Mas uma vez capturado pela rede e balanço do mar torna-se difícil largá-lo.

Era manhã de quinta-feira e seu Elias chegou cedo da pescaria. As redes estavam cheias e o sorriso era largo e satisfeito. O dia tinha vingado, valido à pena. O céu estava claro, o sol ainda brilhava e a pescaria tinha sido boa. Tinha peixe para um mês. Poderia agora pagar a luz, a água, todas as contas atrasadas. Não cabia em si de felicidade.

Mesmo atônito de tanta alegria, avistou um amigo cuja pescaria não tinha sido muito boa e tratou de consolar:

- A pesca é que nem jogo, vicia. Você vai hoje, chega lá e não encontra nada, mas vai amanhã, já vem aquela grande peixada.

- Eu devia é ter procurado outro trabalho. Responde-lhe o amigo desgostoso de profissão.

- Que nada! Pra mim não tem profissão melhor. Eu mesmo é que sou o responsável pelo meu trabalho.

O rapaz deu de ombros e continuou a olhar a baía desanimado.

- Não fique assim... Amanhã é outro dia. E tem mais, lembra que eu tentei trabalhar em outro serviço? Mudei de cidade... Morei uns seis anos em Joinville, tentando trabalhar de funcionário... Mas não deu certo. É o vício da pesca. Lá em Joinville, eu tinha casa, terreno, mas troquei tudo por uma pescaria velha e tratei logo de voltar pra cá, onde me criei... Queria era continuar na pesca.

O rapaz continuou a fazer que não lhe ouvia. Seu Elias insistiu:

- Só um dos meus filhos trabalha com a pesca. Ele, por sinal, tem até o apelido de Pirata... Porque não quis saber de outras coisas. Até foi pra Curitiba, tentou outros empregos, mas não teve jeito de largar da pesca. Já os meus outros filhos trabalham em Curitiba. Não adianta... Quando a pesca te escolhe, não tem jeito.

O rapaz continuava na mesma melancolia e, assim, como se não houvesse nada mais para ser dito, seu Elias tratou de recolher os seus peixes e despedir-se . E lá deixou o amigo, pois ele precisava reconciliar-se com a baía, afinal, era ela quem lhe provia o pão, o sustento. Deixou-os a sós para que pudessem fazer as pazes.

Destino traçado pelas águas foi também o de seu Kalanga e o de seu Manoel que tentaram outros ofícios, outros lugares, mas acabaram voltando para a pesca e para Itapoá.

Seu Kalanga sempre quis ser pescador. Na escola, era bom de matemática, mas ler era uma dificuldade. Já a pescaria, era diversão. O pai, pescador, incentivava que os filhos tivessem outra profissão... Sabia das dificuldades daqueles que lidam com a pesca. Mas não teve jeito, a mesma paixão do pai se deu nos filhos e, assim, seu Kalanga e os irmãos viraram pescadores. Assistiam, ao longe, a habilidade do pai com as redes, com as linhas e, no aprendendo a fazer, tornaram-se homens do mar.

Seu Manoel é homem de muitos ofícios: faz barco, canoa, casa de madeira, gamela, coxim e remo. Arrisca-se como pintor e pedreiro, inclusive já foi barbeiro nos tempos em que morou em Paranaguá. Homem de tantas artes e habilidades tem na pesca sua grande obra, sua satisfação.

Impelidos ao mar desde crianças, esses homens foram criados nas quebranças das ondas, nos desafios da pescaria, numa vida sem patrão. Numa imagem distorcida, os pequenos meninos, tornam-se homens do mar que inspiram suas vidas no vicio e ofício da pesca.

*Mariene Francine Lima é bióloga, Mestre em Educação pela UFPR e colaboradora da ADEA – Associação de Defesa e Educação Ambiental. O texto faz parte da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFPR:  “Mares e Pescadores: Narrativas e conversas em Itapoá”.

 

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